23.10.17

Sol, enganos

Se estiveres num poço com uma pedra amarrada aos pés e as mãos amarradas atrás das costas e esse poço fôr fundo e estreito ao meio dia verás o sol brilhar.

Não te deixes enganar: o poço é fundo, a pedra pesada e o nó que te prende as mãos impossível de desfazer.

Círculo

Navegar sem fim um corpo sem princípio. Navegar no princípio do corpo o corpo do fim. Há um corpo no princípio e outro no fim. Há um fim, um princípio e um corpo. Amar do princípio ao fim o fim e o princípio. Navegar o círculo do teu umbigo, navegar até ao umbigo do mundo, que não tem princípio nem fim: os corpos são o mundo. Amar é o círculo no qual o princípio e o fim se tocam.

Imagina um corpo. Imagina um princípio. Desenha-lhes o fim: é um círculo. 

21.10.17

O vinho e a chacha

A Sifoneria, de longe a melhor cave de vinhos que conheço nos dois hemisférios - o Norte e o Sul, o Este e o Oeste - reabriu. Agora chama-se Bodega Santa Clara e continua onde sempre foi: Carrer de Santa Clara 4.

O resto - tudo o resto - é conversa de chacha.

Relatório e contas

Cinco livros, três discos e um par de jeans pelo preço de uma viagem para Lisboa.

Um desses livros (Palimpsestos, de Aleksandra Lun, ed. Minúscula) começa com esta frase (a tradução do espanhol é minha): "Chamo-me Czesław Pręśnicki, sou um miserável emigrante da Europa do Leste e um escritor falhado, há muito tempo que não tenho relações sexuais e estou a dar entrada num manicómio na Bélgica, um país que há um ano não tem governo."

Outros chamam-se "Releer a Rilke", ou "Elogio de la anarquia" (os autores são "dois excêntricos chineses do séc. III" - não sei como se pode ser anarquista e excêntrico ao mesmo tempo, mas passemos).

Passemos também uma pergunta sobre o regresso a Lisboa.

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 21-10-2017

Há uma mistura entre a geografia, o tempo, a memória e a felicidade (ou pelo menos o bem-estar. Não exageremos). Quero dizer: há sítios em que nos sentamos num café a beber um licor de Hierbas seco e o tempo passa por nós como se fosse água mas não nos molha. Como se estivesse a chover e nós a dançar imóveis, à chuva sem chapéu e sem candeeiros, só com tempo. Tempo no sentido lato: hoje, ontem e amanhã passam-nos igualmente pela impermeável superfície que a geografia montou e à qual por falta de vocabulário adequado chamamos pele.

Palma, claro. Licor de Hierbas, Restaurante El Puente, Livraria Biblioteca de Babel, bar Antiquari. Perdi-me quando saí do El Corte Inglés, por incrível que pareça. Uma irrupção de presente nesta mistura que à partida parece de betão armado e um gajo perde-se.

Comprei muitos livros, alguns discos e um par de calças, que é o mais urgente. Em Lisboa comprarei o resto. Não é possível não viver em Palma. Já me aconteceu muitas vezes, mas cada vez que aqui venho pergunto-me como fiz.

Voltando ao princípio: um gajo senta-se num restaurante, pede uma cerveja, espera um bocadinho e de repente começam a pingar gotas de tempo e esse mesmo gajo pensa "Olha que giro! Está a chover e não me molho", assim, com pontos de exclamação e tudo. Esse gajo faz de propósito e vai à Babel comprar livros, senta-se no Antiquari para os ler - coisa que não faz devido a uma irrupção súbita de disparates - e pensa "o futuro molha muito mais do que o passado".

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As mulheres de Palma são bonitas, mas não tanto quanto as de Genève. Isto é: em Genève são todas bonitas, mesmo as feias; aqui só as bonitas o são, mas há muitas. 

20.10.17

Diário de Bordos - Sul de Ibiza, rumo a Palma, 20-10-2017

Estamos finalmente a andar. Entrou vento, 15 - 20 nós pelo través. O TTG avança aos solavancos, saltos, esticões neste mar curto do Mediterrâneo. As pessoas que compram catas porque acham que são mais confortáveis só os vêem no porto.

Rizámos e perdemos pouco em velocidade; não valia a pena esperar mais. Se o vento não caísse passaríamos Ibiza ao meio-dia e as dez da noite estaríamos em Palma. Infelizmente vai cair de certeza.

É aproveitar enquanto há, solavancos ou não: é a primeira vez que não oiço a merda dos motores desde que saímos de Cascais.

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Por falar em Cascais: acharam a Marina detestável. Pessoal antipático, material degradado e sem manutenção. Curioso como certas coisas não mudam, apesar de o mundo ser composto de mudança.

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Ando outra vez transformado em farmácia ambulante por causa do cotovelo. Quem me cortasse o braço direito e o deitasse ao rio não sabe o favor que me fazia.

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Esta noite vi a maior estrela cadente de toda a minha vida. Ao princípio pensei que fosse um avião com as luzes de aterragem acesas; depois um satélite que se tivesse enganado de órbita.

19.10.17

Diário de Bordos - No mar, a Leste do cabo Palos, rumo a Palma, 19-10-2017

"Mantém-te sempre a barlavento do teu rumo". É giro ter de navegar com armadores a quem tem de se explicar coisas básicas como esta. Tomara hajam muitos, sejam simpáticos e me paguem, como estes.

Vamos a caminho de Palma, finalmente. Estava a ver que ainda tinha de parar em Denia, mas não. Um bocadinho de vento esta noite, mas pelo través. Disse à senhora que seria pouco tempo. Não gostam de vagas. É como eu quando decidi ir viver para o campo: um que é que um gajo alérgico à clorofila foi fazer para Bassins? A diferença é que não paguei meio milhão de euros para isso. Eles sim, ou quase; e ainda por cima por um bote que é uma bela merda.

Mas não sabem e não sou eu quem lhes vai dizer. Pelo menos tratam-no bem. Hoje tivemos o Juan Pedro, por um problema no leme e a malta da Volvo para o serviço das duzentas e cinquenta horas. Já me disseram que posso ficar a dormir a bordo se quiser passar uns dias em Palma. Quero, claro.

Mas não muitos. Dia 25 tenho imperativamente de estar em Lisboa. É um imperativo bom e para esses sou um rapazinho obediente.

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Hoje vi-me grego para encontrar uma padaria aberta às sete da manhã. Não há países perfeitos. Este tem esse problema, mai-lo palerma do Puigdemont. Não sei como estão as coisas pela Catalunha. Não consegui sintonizar o Facebook para lá.

Andam todos entretidos com aquela mistura de incêndios, ministros e incompetências diversas que por lá grassa.

Só tenho pena que o Passos Coelho se tenha retirado. Para o que aí vem, antes padarias que não abrem a horas decentes e um palerma que ninguém percebe.

17.10.17

Diário de Bordos - No mar a Sul de Adra rumo a Cartagena, 17-10-2015

São seis e meia da tarde, estou de quarto até às nove (entrei às seis), está frio (é o primeiro dia de Outubro desta viagem), o vento está ponteiro mas fraco e vamos a motor. Estou quinze milhas a Oeste de Almerimar (e a cinco de terra); desde pouco depois de Sagres que a VHF não se cala com avisos à navegação: cinquenta e cinco pessoas; trinta e quatro; oito; cinquenta e sete, a bordo de lanchas, botes de borracha, insufláveis... É horrível. Penso no que está gente pagou para ser tratada desta forma, explorada, roubada, entregue a campos de refugiados. Tudo isto é melhor do que o que têm; tudo isto é nojento.

A Europa tem culpas no cartório. Não as que os "desculpistas" tiram do chapéu a cada esquina, mas as de fechar as fronteiras aos produtos agrícolas que os países africanos podiam produzir e exportar; as de alimentar e financiar regimes corruptos e despóticos para aliviar a má consciência  (que é completamente injustificada, ainda por cima).

Ou seja, para nos desculparmos de crimes imaginários e para proteger meia dúzia de agricultores franceses condenamos milhares de inocentes à morte e à infâmia de uma vida miserável.

Depois vamos ajudá-los: enviamos meninos e meninas em barquinhos, enviamos vasos de guerra e lançamos avisos sem fim na VHF.

Merda! para esta merda toda.

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Entretanto Portugal arde e António Costa dá uma lição ex-catedra sobre a arte de ser português.

Lição que aprendi mal, infelizmente e agora é tarde. Gosto de Portugal e provo-o com actos, não com palavras; viajei o suficiente para saber que todos os paises têm coisas detestáveis. Mas Portugal é o meu e é onde quero passar o que me sobra (ou o que me falta, depende do ponto de vista). António Costa provoca-me náuseas,  quase tantas como o seu patrono Sócrates. Deviam ir os dois combater os incêndios ao lado dos bombeiros. E se possível ficar por lá.

Enfim, não lhes desejo a morte. Mas umas queimaduras em segundo grau não lhes fariam mal. E talvez abrissem os olhos dessa ameba escorregadia que faz de nós parvos. (O outro pelo menos tem a justiça pela frente. Ao menos isso. Custou mas foi).

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Está frio, estou com vontade de chegar a Palma e amanhã entra badanal. O mar está cheio de desgraçados em busca de uma vida melhor do que a que teriam se ficassem nos seus países. Melhor deixar o Costa em paz, mai-los agricultores franceses e os meninos com sede de aventura. Antes concentrar-me no quarto. Ainda faltam duas horas.

[Adenda: apresso-me a esclarecer os mais puristas que não há tráfego, estou longe da terra e levanto os olhos do telefone de cinco em cinco minutos.]

Um post curto sobre lulas fritas, badanal e princesas

A próxima escala é em Cartagena: vai entrar badanal e nem os armadores nem eu estamos com muita vontade de nos chatear.

Antes assim. Pode ser que haja uma boa exposição no Museu e haverá de certeza lulas fritas no café Taona. Fazem-nas com farinha de grão-de-bico, se a memória não me falha. Ficam levezinhas, deliciosas, finas.

Entretanto Palma faz-se esperar, como convém a uma princesa.

Milagres e cocó nas fraldas

Não é serem idiotas;  não são  (aliás estes até são adoráveis); não é não perceberem nada disto, coisa que graças à miserável expansão da RYA já não depende sequer da idade: a RYA está a matar a arte de marinheiro; não é serem arrogantes - toda a ignorância é arrogante -.

É pior, mais fundo e mais intratável do que tudo isso. É não se maravilharem, não verem o milagre. É eu estar farto.

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Enchem-se de electrónica, que percebem tanto quanto eu o chinês do séc. V a. C. Não sabem falar: dizem bumpers em vez de fenders, janelas em vez de vigias, chamam paredes às anteparas; não sabem que não se dorme num quarto, dorme-se num camarote. Não sabem sequer andar a bordo: parecem elefantes bêbedos. E vão para o mar assim.

Em terra estariam no jardim de infância e aprendiam a não cagar nas fraldas.

16.10.17

Serviço Público - Restaurantes Málaga

Largamos amanhã de manhã cedo e deixo aqui uma palavrinha rápida para recomendar aos meus leitores que se um dia tiverem de passar em Málaga e nesse dia precisarem ou de um pequeno almoço ou de uma refeição rápida, boa e barata um dos sítios a ir é a padaria La Canasta, sita na Av. de Cánovas del Castillo 2.

(Normalmente estas indicações de restaurantes são para mim, mas da espécie de prego com presunto que hoje jantei não corro o risco de me esquecer nos próximos duzentos e cinquenta anos).

Diário de Bordos - Málaga, Andaluzia, Espanha, 16-10-2017

Ia a caminho da sesta, juro que ia. Mas mal saí do café Bruselas - o meu antro em Málaga desde que a J. me levou lá - ouvi música. Eram dois gajos, um baixo e um guitarra, francamente bons. Tive um certo contacto com músicos de rua há alguns anos e é uma classe profissional pela qual tenho o maior dos respeitos.

Quando são bons ainda mais.

Estes são dos melhores que tenho ouvido, ao nível de uma banda em Palma que incluía uma violinista búlgara, uma cantora portuguesa e um baixo argentino que estavam para lá do muito bom. Aqui os dois andam lá perto. Têm aquela qualidade fundamental na música de rua que é o bom humor, fazer rir as pessoas, quase mais importante do que a técnica.

Infelizmente o mojito do Café con Libros - à frente do qual tocam - não está à altura. Lembro-me de alguns tão maus como este, mas pior nada me ocorre. Fica o nome do café e a música,  que agora acabou e me deixa aqui pendurado, equilibrista entre uma sesta mais do que merecida e um mojito que ninguém merece.

Diferenças

Um barco que é uma merda, comparado com o outro; mas está novo e é bem mantido. E um armador sério em vez de um aldrabão, ladrão e outras coisas acabadas em ão.

Para um engenheiro, provavelmente, cada ponte é uma ponte; para um médico, cada doente um doente. Para mim, cada barco é um planeta. 

15.10.17

Diário de Bordos - Málaga, Andaluzia, Espanha, 15-10-2017 / II

Uma vez saindo das imediações do porto e embrenhando-nos nas ruelas pedonais do centro Málaga perde o ar compostinho de menina de boas famílias. Antes assim.

Tinha duas missões: comprar um cartão para o telefone do armador e analgésicos para mim (isto é, para a porra das epicoisas). Uma das grandes vantagens de Espanha é que as ruas estão cheias de mulheres espanholas. A desvantagem sendo que perguntar uma indicação a um transeunte é a mesma coisa do que perguntar a um marciano onde é a casa da Mariquinhas, seja qual for a distância a que o dito cidadão esteja do alvo da nossa pergunta.

Acabei por encontrar as duas coisas; não me queixo, afinal de contas, da combinação perguntas & espanholas. Agora resta aguardar que o analgésico faça efeito.

Vim para a Casa Lola (dito assim parece que conhecia; está longe de ser o caso, infelizmente) beber vermutes do barril - uma das especialidades da casa - ver se o Tramadol se despacha. Ajudá-lo, por assim dizer.

O sítio é melhor do que bom e o vermute melhor do que o sítio. Só tenho pena de não ter vindo almoçar aqui, mas não faz mal. Amanhã também é dia.

Todos os dias são dias, claro. Um pouco mais quando a merda do cotovelo se esquece de mim, um pouco menos quando não. Médias feitas, não me queixo. Imagine-se que estava a doer-me o cotovelo na Amadora.

¡Y viva a España!

Casa Lola
www.tabernacasalola.com
+34 952 223 814
c/Granada 46
Málaga

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O vermute de barril não parece ter grande efeito sobre o analgésico. É uma mistura de Tramadol e Paracetemol. Uma merda, é o que é.

Vou para bordo dormir.

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Vai tu.

Diário de Bordos - Málaga, Andaluzia, Espanha, 15-10-2017

É domingo, mas já ganhei a minha caña, a J. vem aí, o tempo continua estival e a única coisa que me chateia é que se calhar vou ficar mais um dia aqui, a fazer fé nas últimas previsões. Talvez seja engano, não sei, vamos ver. De nada serve um gajo excitar-se demasiado antes de tempo, nesta vida de mar. Agora espero pela J., bebo uma cerveja e escrevo disparates no café Galopain, uma coisa metida a afrancesada e cujo nome começa logo por um erro de ortografia, suponho. Devem ter querido dizer Galopin, que é o equivalente à nossa Lambreta, uma imperial pequena. Meia imperial, por assim dizer.

Málaga está mais calma do que da outra vez que aqui estive, foi no pico do Verão. Parece uma cidadezinha burguesa, calma e de bom gosto, pelo menos a julgar pela padaria La Canasta onde hoje comprei pão, presunto e chouriços para o pequeno almoço e pelo erro de ortografia que lhe fica mesmo à frente, onde tento enganar o sono porque me deu um ataque de soneira que só com mais dez cañas passará; não comemos os enchidos e o presunto porque os armadores não quiseream e eu não quis abrir aquilo só para mim mas o pão era excelente e marchou deliciosamente com a manteiga dos Açores.

Galopin também significa "miúda da rua".

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Pouco importa. J. apareceu, mas de raspão porque tinha de ir trabalhar e eu mudei-me para a Canasta onde daqui a pouco me vou encontrar com os armadores e onde agora bebo um copo de vinho tinto e penso na ecologia, na J., em St. Martin onde a conheci - ficou comigo a bordo do S. M., cada um no seu camarote sem excepções, note-se - e em como não sei como raio de carga de água vou deixar esta vida, parece-me que querer viver em terra é como querer andar atrás das miúdas que me deram tampas atrás de tampas. Ele é a terra e as miúdas, tampas e sonhos.

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Os domingos de manhã foram feitos para isto, não foram?

(Isto sendo trabalho, uma miúda cujos cabelos brancos fazem mais bonita do que quando os tinha só pretos, pretos retintos, vinho tinto - cf.missa, já lá alguém viu vinho branco? - e umas croquetas de salsichón de Málaga que a três euros e picos a meia dúzia deliciosa me fazem perguntar se um dia não terei de me mudar para Espanha e sim quando (a net de merda diz-me logo que não, obrigado, nunca).

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A dor no cotovelo direitio tem nome, desde Abril. Chama-se epicondilose e não me larga, a puta. As putas: são duas, uma ao lado da outra.

14.10.17

Diário de Bordos - No mar, a sul de Marbella e rumo a Málaga, 14-10-2017

Chama-se a isto "um tempo de senhoras": cinco nós de vento, mar chão e nós a caminho de Málaga porque amanhã vai entrar vento de proa e ninguém a bordo está com vontade. Paramos dois dias, se as previsões estiverem correctas. Espero que estejam. Gosto mais de Málaga do que a conheço e se a J. lá estiver terei uma boa guia.

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Não sei se é a idade, se o bom senso (não andam sempre juntos, ao contrário do que por aí se diz) se o que é: mas deixei de me importar com o motor. Há já algum tempo, não é de agora: gosto de estar no mar, seja à vela seja a motor (se bem prefira aquela, claro).

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A dez milhas de terra e tenho net. Qualquer dia estou a queixar-me de que a net é lenta.

Alegrias novas

Aqui o coitado do Don Vivo fica todo contente quando o escrevo do mar. 

História velha

A apanhar porrada para entrar no Estreito. Onde é que já ouvi isto?

13.10.17

O centro do mundo

Um gajo vai deitar-se e pergunta-se onde estão os centros do mundo que farão de uma noite vazia uma noite cheia como a Lua.

Serviço Público - Restaurantes em Barbate.

El Ancla del Galéon. Av. del Mar 98. Barbate.

É uma tasca e tem a melhor barriga de atum que comi em muitos anos.

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 13-10-2017

Pode ser que o amor obnubile a memória;  ou a exacerbe. Vá saber-se. A verdade é que procurava um lugar onde estive com uma senhora que amava, faz agora alguns anos. Não encontrei.

Jantei com os armadores - um casal bastante mais simpático do que parecia às primeira e segunda vistas -; depois despachei-os para bordo e Ecco!

Encontrei o lugar. Não encontrei o então amor, claro. Esconde-se para lá da outra metade do mundo. Mas reencontrei-me, factor não despiciendo no meio deste turbilhão. Parece uma daquelas misturadoras de gelados mas com mil sabores diferentes.

Dois deles são clássicos: licor de hierbas e um cigarro comprado avulso. Vinte e cinco cêntimos cada; e a salsa nos altifalantes. Três. E estar ligeiramente grosso. Quatro.

Num turbilhão. Cinco.

Barbate é maior e mais feia do que a minha memória obnubilada ma representava. Antigamente chamava-se Barbate de Franco, mas deixou cair a segunda parte do nome. A marina continua vazia e com precos ridiculos de baixo.

O amor ou é obnubilador ou não é amor. É outra coisa qualquer.

Está calor. As pessoas que reclamam contra o aquecimento global não sabem viver. Isto é: não sabem nada.

Eu sei muitas coisas. Viver, por exemplo: basta calor, licor de hierbas, um cigarro avulso e a sombra de uma ameaça de um turbilhão. Tudo isto num molho de memórias e futuros breves, como são os meus.

Despachei os armadores e pensei que ficava sozinho. Não fico. Merda.